«Victor, uma força da natureza ao serviço do Sporting»



 Texto de Paulo Alcobia Neves


"Na noite de 26 de novembro de 1981 o Sporting Clube de Portugal jogava a primeira mão dos oitavos de final da taça UEFA contra uns quase desconhecidos Suíços do Neuchatel Xamax. Ao meu lado estava o Victor, um adulto jovem que se destacava dos demais pela simples razão de que “ia a todas” (nunca na vida usei este substantivo com tanta propriedade).

Fosse no pavilhão, nas pistas de atletismo, na sala do ténis de mesa ou junto às mesas de bilhar a voz do Victor sobressaía e onde ele estivesse não havia lugar ao silêncio. Nunca ninguém voltará a proferir a palavra mágica tantas vezes numa vida como o fez o Victor e fazia-o gritando, mesmo quando todos os outros se calavam."

Quando me radiquei no campo não poucas vezes acompanhei as modalidades nas tardes desportivas da RTP2, cresci, casei, envelheci a ouvir, com saudade, aquela voz rouca, os gritos incessantes, o rugir daquele Leão incansável.

Mas voltemos àquela noite fria de 1981, a meio da segunda parte o Victor levantou-se, ficou hirto, imóvel, de braços abertos e foi como que empurrado por uma força misteriosa bancada abaixo. Foi o primeiro de alguns dos seus ataques epiléticos a que assisti… na queda partiu a cabeça e deixou um rasto de sangue. Apressei-me a chamar os bombeiros e fomos juntos para a enfermaria do estádio onde permaneci muito para lá do final do jogo. 

O Victor teria uns trinta e tal anos e eu acabava de fazer 15. Preocupados com aquele homem que estava ali prostrado e ensanguentado, uns adeptos Suíços, que entretanto vim a saber serem os pais do defesa Stephane Forestier, aproximaram-se para saber do seu estado de saúde e perguntaram-me se era o meu pai, respondi-lhes que não, que era apenas um companheiro de bancada. Deram-me os parabéns por estar ali com ele, ficaram meus amigos e durante alguns anos trocámos cartões de boas festas.

Graças à medicação os ataques do Victor foram sendo controlados, só mesmo o seu amor ao Sporting era incurável e foi por isso, com uma enorme tristeza que me disse, há uns meses, que a complexa cirurgia aos intestinos a que foi sujeito o impedia agora de voltar a acompanhar o seu Sporting.

O Victor está presentemente institucionalizado no Lar dos Inválidos do Comércio, no Lumiar, mas entre os da minha geração é enorme a vontade de o homenagearmos condignamente.

E não, o meu texto não é para pedir qualquer tipo de apoio, é apenas para que conheçam um pouco da história de um homem bom que viveu para o Sporting e que acompanhou gerações de atletas e adeptos. Peço-vos apenas que se um dia essa homenagem chegar, também os mais jovens o aplaudam porque o Sporting somos Nós e o Victor será eternamente um dos nossos!"

Por Paulo Alcobia Neves
Publicação autorizada pela próprio autor.
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