Miguel d'Almada: «O Sporting para mim são essas pessoas»

Margem Sul (24 Julho 2015)


...A cidade de Almada está carregada de nuvens, porventura escuras neste dia de verão. Almada terra de muitos Sportinguistas, Almada como sobrenome de um enorme ultra do Sporting. Miguel de Almada, ou Miguel do Mundo...é assim que chamam o Miguel, o velho ultra leonino. Quase uma vida dedicada ao movimento "Ultra", uma vida também dedicada ao nosso Sporting e a sua falange de apoio. Miguel está fisicamente mais longe de Alvalade, mas o coração e a alma de Sportinguista está sempre presente em cada palavra ou em cada palavra que envia para o seu mural do Facebook.

O "Almada" já liderou gritos e incentivos ao Sporting na bancada, já fundou claques organizadas leoninas, já escreveu livros, já escreveu canções...Já se tornou uma espécie de ícone dentro do movimento "Ultra". A Cortina Verde pediu ao Miguel que fale um pouco da sua actualidade enquanto "Ultra" e os seus próximos projectos, uma conversa que agora apresentamos a todos os Sportinguistas.



Cortina Verde: Bons Dias Miguel, este livro que estás a disponibilizar na tua pagina Miguel D`Almada que deste o nome de "Ultras 2006" fala sobretudo do movimento "Ultra" pela Europa e pelo Mundo, fala-me um pouco sobre este livro e como surgiu esta ideia.

Miguel d'Almada: "Em primeiro lugar começo por corrigir, visto que o livro fala do movimento "ULTRA" somente onde ele existe, ou existia, de facto, ou seja, em Itália. Essa ideia surgiu pelas transformações a que eu assistia, por acompanhar o fenómeno de perto, e que me faziam pressentir que o fim do movimento como eu o havia conhecido estava muito próximo, por culpa da repressão policial, das alterações nas leis, do futebol-negócio, dos conflitos geracionais, da própria internet e do "ultras-business". 

"Apenas tentei compilar algumas ideias sobre a fundação do movimento, o código de honra que o regia, os comportamentos que o definiram e a situação a que chegámos no ano de 2006 que mesmo assim se distanciou imenso daquilo a que assistimos actualmente, acrescentando que com o nível sempre em queda constante. Espero que seja um guia para as novas gerações e que se pelo menos uma pessoa que o leia se torne um seguidor, combatente e transmissor dos verdadeiros ideais, já fico satisfeito. O espírito não está morto."

Cortina Verde: O que mudou na mentalidade "Ultra" de há 20 anos para a nossa actualidade? A nossa sociedade (e da maneira como está fragmentada) ainda consegue cativar pessoas a aderir a esta forma de ver o desporto (em particular o Futebol)?

Miguel d'Almada: "Mudou tudo! Se estiveres a colocar a questão no verdadeiro cenário, o italiano, como disse antes, o fenómeno como nós o conhecemos está praticamente extinto. Se me estiveres a colocar a questão aplicada à realidade portuguesa, o fenómeno "claqueiro", mudou muita coisa na forma de ser, de agir e nos verdadeiros propósitos que guiavam os percursos das claques."



"Em Portugal assiste-se na sua generalidade a um jogo triangular entre claques, dirigentes dos clubes e forças policiais. Todos os três querem manter as suas posições confortáveis. As claques porque se tornaram numa profissão de alto rendimento, livre de impostos, sobretudo no que diz respeito á comercialização de bilhetes cedidos pelos clubes. Para além disso, todos os negócios paralelos, e em muitos dos casos ilícitos, que poderão ser feitos protegidos pela capa do protagonismo e pela promiscuidade existente com os outros dois vértices do tal triângulo."

"Os dirigentes porque encontraram uma forma de não serem incomodados com o desconforto que em outros tempos lhes provocava a insatisfação dessas mesmas claques no que à vida e sucesso do clube dizia respeito. Sem contacto directo com  as claques, até porque inventaram um posto de trabalho dentro dos clubes, arranjando uma pessoa que serve de intermediador nessas relações que depois se estendem à colaboração com as forças policiais  Calando os líderes com dinheiro fácil, conseguem controlar toda a restante massa que compõe essas mesmas claques. Hoje até é mais frequente assistirmos a confrontos entre grupos do mesmo clube, motivado por conflitos de interesses, do que confrontos com adversários."


"Por fim a polícia, persegue quem beliscar este triângulo, com o trabalhinho todo feito porque esse controle nem precisa de grande investigação por consequência de todas as informações passadas quer pelo individuo de ligação às direcções dos clubes como também pelos próprios líderes das claques que como é óbvio não querem problemas com as forças policiais para assim poderem manter a sua "diferenciada" condição de vida, sem qualquer sobressalto e por muitos anos. Uma mão lava a outra."


"Isto não é "Ultras" não é nada e é possível que cative uma nova franja de uma nova geração das "selfies" nos estádios e de cantorias inofensivas e de exigência nula. Os que viveram a verdadeira essência não se podem identificar com isto de maneira nenhuma porque aquilo a que se assiste hoje vai contra todos os princípios que definem "ULTRAS"."

Cortina Verde: O CD Campeão de Vendas "Só eu Sei" marca uma viragem na tua vida, com foi lidar com o sucesso repentino? Havia noção que esta CD pudesse atingir o primeiro lugar do TOP de vendas nacional?



Miguel d'Almada: "Foi sem dúvida um marco importante na minha vida mais pelo facto de ficar eternamente com o meu nome ligado ao espólio musical do clube. Esse é o meu maior troféu. Não soube lidar com o sucesso porque me vi subitamente rodeado de "hienas" e naquele tempo não tinha ainda a preparação, nem a experiência necessária para enfrentar o assédio que me colocou num labirinto infestado de pessoas com duas caras."

"De qualquer forma se pudesse voltar atrás faria tudo o que fiz, mas faria de maneira diferente, teria sido mais implacável nalgumas ocasiões e mais incisivo em determinadas acções que considero hoje que fui demasiado leviano."

"Nunca imaginei que chegasse às 75000 unidades vendidas e 4 semanas no 1º lugar do Top Nacional mas a minha verdadeira alegria nesse ano foi acreditar que tinha também contribuído para a conquista do campeonato ( apenas relembrar que foi o último conquistado já lá vão 13 anos) e umas semanas depois a Taça de Portugal."


Cortina Verde: Estar fisicamente longe de Alvalade custa-te muito? Sentes falta do Ambiente de Alvalade? ou melhor dizendo sentes-te nostálgico quando te lembras de Alvalade?

Miguel d'Almada:"Sinceramente sinto a falta dos meus amigos, das pessoas de quem gosto e das que gostam de mim. O Sporting para mim são essas pessoas. Em relação a ambientes de futebol continuo a viver diáriamente envolvido com essa questão e até enquadrado em ambientes infernais (como eu gosto) diferentes da pasmaceira a que assistimos nos dias de hoje na generalidade dos estádios da Europa Ocidental."

"Acompanho o Sporting diáriamente, vejo todos os jogos, como sempre farei e tenho muitas saudades (de virem lágrimas aos olhos) do Estádio José Alvalade inaugurado em 1956."


 
Cortina Verde: O famoso "Sporting Sempre" ou a tradicional frase "A nossa família é sagrada" fazem parte da identidade de qualquer "veterano" de guerra "ultra". Estas frases hoje em dia continuam a fazer sentido no seio de uma claque?

Miguel d'Almada: "Não posso ter uma posição concreta sobre essa questão porque não pertenço a nenhuma claque, mas não me parece que numa "família sagrada" existam agressões e perseguições entre os seus elementos. O "Sporting Sempre" é natural que continue a fazer sentido porque se para uns será o lema eterno, para outros será a única condição vital de subsistência e manutenção."

Cortina Verde: Assististe à queda de muitos dirigentes e direcções leoninas, também sabemos que criticas-te ferozmente quem ousou "Liquidar" o Sporting e a sua historia enquanto instituição. Como vês o teu Sporting actualmente? O Sporting é mesmo nosso?

Miguel d'Almada: "Critiquei e criticarei sempre que me veja obrigado porque ninguém é mais Sporting do que eu e eu também não serei mais Sporting do que muitos outros, mas eu tenho a minha visão sofisticada e exigente de um Sporting que infelizmente para mim não me tem proporcionado durante estas mais de 4 décadas de vida aquilo que espero dele...vitórias, conquistas! E mesmo que tivesse sido campeão 40 anos seguidos eu iria querer 40 anos de campeonato e taça. Sou assim e sempre serei e espero que continuem a existir muitos outros sportinguistas que pensem como eu."

"Actualmente vejo o Sporting ainda a tentar encontrar-se e a tentar recuperar, dentro das suas limitações actuais, mais prestígio do que aquele que foi conseguido nos últimos 40 anos. Esperemos que o Sporting se levante e nos devolva a Glória que eu sempre esperei alcançar.
O Sporting será sempre nosso...basta que assim o queiramos!"




Agradecimento: Miguel d'Almada
Entrevista por Carlos Martins 

Foto: Miguel d'Almada (https://www.facebook.com/MigueldAlmada)
@Cortinaverde.pt
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