"Francisco Geraldes: alimentar a 'B' a Pão de Ló" - Por Nuno Felix

Na esteira do Carnaval, espero que ninguém leve a mal. 


Que ninguém se precipite, sobre o que aqui vai ler, porque sobre aqueles que verdadeiramente admiramos é saudável que nos deixemos levar pela passional afeição e nos apartemos das cautelas mais cínicas a que não menos cinicamente vamos chamando de razoabilidade.

Com uma bola nos pés ao fim de 2 minutos qualquer um tem medida do seu talento. Um observador profissional que por ano vê mais de 200 jogos em estádio, outros tantos por análise de vídeo, mais aqueles que não se podem perder, por vezes, só pela maneira como um jogador pisa o relvado sabe se tem ali jogador. A definição da bilateralidade do jogador? Essa então é imediata. Ou nem por isso... Para 99,9% dos jogadores, na primeira ação com bola, podemos afirmar com 100% de certeza, que o jogador é um destro ou um esquerdino. Isto funciona sempre. Sempre, até tropeçarmos num jogador excepcional... como Francisco Geraldes.

Um enganador com um talento tão honesto quanto honesto pode ser quem faz um uso tão eficiente de uma característica que lhe confere uma vantagem desleal sobre os que com ele partilham e disputam o centro do terreno de jogo. Em sequências completas de receção, condução, drible e passe, este destro dá-se ao luxo de dispensar por completo o contacto da bola com o seu pé nato, para logo de seguida, encadear sequências semelhantes, mas já assumindo a sua destreza mais natural. Ele tem para todos os gostos e ocasiões. Conduzindo ou entregando de primeira, perto ou longe, verticalizando ou equilibrando na largura, a melhor forma de tentar anulá-lo é mesmo na base da porradinha. Mas até quando o jogo escorrega para uma dimensão mais física, sai-nos melhor a ementa do que o sorvete, porque o discreto alfacinha com ar de anjinho da Capela Sistina também é capaz de mostrar os dentes. Sem bola não desliga do jogo, e com bola tem uma chegada à baliza acutilante onde a meia distância que lhe sai fluída e potente é um dos seus traços mais vincados enquanto jogador eminentemente ofensivo.

Por vezes, mais parece que estamos a ver o jogador e um seu clone refletido no espelho da nossa expectativa, permanentemente frustrada pela inteligência do jogador. Francisco troca de canhoto para destro, de número 10 para número 6, de jogador de apoios curtos para distribuidor em grande profundidade. Que dor de cabeça é jogar contra um jogador assim, e que permanente motivação é para os seus companheiros de equipa saberem que por mais difícil que esteja a bola, o Chico é capaz de encontrar uma solução.

É a personificação da superioridade intelectual de um jogador, a capacidade de iludir o adversário sobre a sua própria natureza e de alimentar a ilusão daqueles que jogam ao seu lado. Geraldes não tem qualquer atributo físico que lhe confira vantagem sobre os demais, e até por isso é um criativo a quem merece serem perdoados todos os custos dos riscos que toma, porque se num momento pareceu querer fazer o impossível e falhou, no momento seguinte arregaçou as mangas e mostrou que, também defensivamente, não está ali apenas para fazer que faz, e que não precisa de ser um Javi García para também ser importante no equilíbrio defensivo da equipa. Tem a leitura de jogo, a antecipação, a concentração competitiva.

Se existem intelectuais da bola que nunca deram 3 toques seguidos sem a deixar cair, outros intelectuais da bola existem que para felicidade de todos nós o destino os tornou em jogadores. E não estou a fazer a graçola fácil sobre jogador não descurar a sua educação e que leva livros para estágio, ou sequer sobre o seu treinador que se diz catedrático. Num jogo tão democrático como é o futebol, mesmo aqui temos de reconhecer aqueles que se afirmam pela inteligência do que são capazes de fazer e não pelo que dizem.

Nesta fabulosa modalidade, mesmo os baixos, os gordos e os coxos têm a possibilidade de subir ao Olimpo em chuteiras. Haja talento e quem o saiba reconhecer.

Aquele que parece hoje ser o prato do dia, é pão da semana passada para quem acompanhou o Liga Ledman da temporada passada. Há mais de 1 ano que o Chico não já merecia lá continuar. O futebol não é uma ciência oculta, para Geraldes a Primeira Liga portuguesa era o contexto competitivo mínimo para as suas capacidades.

Francisco Geraldes estava pronto para se bater contra as primeiras escolhas dos principais adversários do clube que assume ser verdadeiramente o seu desde pequenino. Como a conquista da Taça da Liga o provou, estava pronto para vencer competições e espalhar classe, qual xadrezista que está sempre 3 jogadas à frente do adversário.

Dizer que foi o Moreirense que desenvolveu este jogador é o mesmo que afirmar que antes de passar pelo Vitória de Setúbal o João Mário não corria, ou que o André Gomes não tinha intensidade para jogar na Luz, ou que o Bernardo Silva era um porta-chaves que quanto muito para remediar a defesa-esquerdo nas ausências do Eliseu ou do Djavan...

Francisco Geraldes não foi chamado de volta a Alvalade por causa do Moreirense, mas apesar do Moreirense. Numa equipa melhor, rodeado dos melhores, um grande jogador, competitivo e concentrado como ele já demonstrou ser, joga muitíssimo mais, e melhor.

Neste início de temporada o maestro era mais um controlador aéreo, tal a forma como uma equipa pequena como o Moreirense sentia dificuldade em acomodar no seu futebol um 10 com este perfil. Mas mais do que conformar-se às necessidades dos aflitos, Francisco Geraldes ensinou em Moreira de Cónegos como fazer do feio o bonito, como a transição pode ser rápida e ao mesmo tempo temporizada, organizada sem deixar de ser imprevisível. Mais difícil ainda, assumiu-se como ponto focal da sua equipa. Onde, e quando, muitos outros jogadores se esconderiam, Geraldes jogou muito para além da sua aparente fragilidade física, utilizando-a mesmo como ilusão para se libertar das marcações mais apertadas, mantendo aos seus apoios e referências e dando ao esférico um destino que mesmo de improviso parece ser planeado.

O Moreirense apenas tornou evidente a capacidade de liderança natural pelo talento que é o factor distintivo dos grandíssimos jogadores.

Ver este jogador defrontar o Desportivo das Aves no Estádio Aurélio Pereira um dia após não se ter levantado do banco na Amoreira até doeu. De comparável só a agonia de ter acompanhado Bernardo Silva no Seixal, preterido semana após semana nas chamadas à primeira equipa pelo Ivan Cavaleiro de corrida.

A história tende a repetir-se. Ou Geraldes passa definitivamente para a primeira equipa Alvalade, ou no próximo ano, Francisco Geraldes no Sporting... é mais bolos.

Algumas coisas mudam, outras continuam iguais. Certo é que quem testemunha o desperdício de talento não esquece.

Não se fazem omeletas com ovos que não se querem abrir.

Por Nuno Felix
@Record.pt
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