«De Pequenino se torceu o pepino...» Por Carlos Martins

A entrada no confessionário, o desbravar de memórias de criança, é como viver no lado obscuro das trevas, ter coragem e frontalidade para o assumir. É como estar no inferno e procurar o céu…a história do renascer para um sentimento a roçar a paixão.



Paço de Arcos, 1982…


O rapaz que inundava os joelhos com cicatrizes desgovernadas, possivelmente devido a várias quedas duma bicicleta pequena, era afinal benfiquista. Ele que nunca tinha visto qualquer jogo na televisão desse clube, foi difícil á primeira vista nascer numa família sportinguista e ser conotado como benfiquista. Essa contradição tem algum de malicioso. Mas para o rapaz o Futebol ainda lhe passava ao lado, a única vez que o futebol na sua mente era quando se colocava a foto do jogador da bola numa carica duma garrafa Coca-Cola já sem vida. Tudo o que não fosse “jogos sem fronteiras” não faziam sentido para o menino de Paço de Arcos, excelentes aquelas noites de segunda-feira quando o clube de vermelho não jogava, era um silêncio puro que reinava naquela sala, fantasmas vermelhos já não nos podiam tirar o gozo de ouvir um Eládio Clímaco. O Rapaz adorava aquelas segunda-feiras, o 4º andar da Rua de Porto Alegre cheirava a contenção desportiva naquela altura.

Pobre rapaz influenciável, Para ele o desporto fazia-se com uns famosos canudos de plástico que faziam as delícias da pequenada, ou duma bola que já não era de trapos, mas também era jogada numa pelada, mas paixão por qualquer clube era algo inimaginável naquela altura, se havia paixão por algo ou por alguém era pela sua doce e querida avó Rosa. Mas naquela casa com vista para linha do Estoril, não reinava a democracia, e o rapaz teve mesmo de ser tornar benfiquista, O pão estava sobre a mesa e a esse é difícil dizer “NÃO”. Foi-lhe comprado um chapéu com uma imagem do famoso jogador cabeludo benfiquista, o rapaz olhou para essa prenda de natal com um olhar de indiferença, mas foi logo chamado á atenção para o facto de naquele clube a história se fazer ainda a preto e branco fruto das famosas vitórias ditatoriais do Professor Salazar. Se existe algo que associo frequentemente ao Benfica é António de Oliveira Salazar…

Bruscamente houve uma mudança de ares, fruto de romances e histórias de amor pouco previstas, o rapaz voltou a acompanhar a mãe nesta jornada chamada vida. Margem sul era o seu destino, ninho de industriais viciados em jogo. Aos poucos foi-se sentindo de novo em casa, e tornou-se apaixonando pelo lado oposto do “ser vaidoso e pouco humilde”, enfim o rapaz tinha voltado quase a renascer ou seja tinha-se tornado adepto do Sporting, o Tal de Portugal. Tinha voltado quase das trevas, ser daquele clube por intoxicação motivava quase um exorcismo puro, Foi bom ter voltado á vida referiu o rapaz…

Fruto de influências desmedidas, cedo se percebeu que estaria ali um rapaz pronto a defender a sua dama a qualquer preço. Decorria o ano de 1984 quando chegou a primeira prenda ligada ao Sporting, era uma bola e um lindo equipamento do Sporting, o rapaz moreno e de sorriso rasgado já podia contar aos seus amigos que o Sporting para ele era já o melhor de Portugal. Na escola vivia-se o gozo, o gozo e a ridicularização do Sporting, afinal estávamos no auge dos 18 anos sem glória, mas o rapaz não nunca desistiu do seu amor, um amor que mesmo não sendo á primeira vista se tornou um amor obsessivo e complexo, e sempre que podia defendia-o como duma batalha medieval se tratasse.

Naquela tarde de Primavera em 1989, o pequeno rapaz moreno sentiu o Sporting como nunca tinha sentido, Fernando Gomes o bi-bota partiu para a bola com pouca convicção e tinha desperdiçado a hipótese de passagem á fase seguinte da prova europeia, algo que o fez o menino feito rapaz chorar sem limite, aquela derrota marcou o início dum amor desmedido, e hoje em dia ainda é algo que é difícil de explicar. Não se chora por um penalty falhado, chora-se porque o nome do Sporting não tinha soado alto, chora-se porque existe algo dentro de nós que nos faz acreditar numa vitória, mas também se chora porque a nossa paixão não teve sucesso…ainda hoje esse menino não consegue explicar porque chorou dessa vez. Nesse tempo ainda se chorava pelo Sporting, consumia-se lágrimas de tristeza quando perdíamos, e ousávamos desafiar quem nos queria fazer mal. Naquele tempo ficávamos viciados no nosso clube, apertávamos com força o adepto do lado quando marcávamos um golo, virávamos a cara ao jogo quando nos sentíamos puramente gozados.

Ouço agora dizer que nos vencerem pelo cansaço, e neles solto a minha raiva, choro porque o rapaz já se sente indiferente ao ver o seu Sporting, para o Rapaz já feito homem existem já momentos mais importantes do que Sporting marcar um golo, existe uma vida feita de loucuras exigentes a nível familiar, mas o Sporting estará sempre para lá duma paixão, essa paixão que ainda me consome, mas vai se tornando cada vez mais pequena…ou cada vez menos importante. Ainda choro por dentro quando me querem afastar da minha paixão…

Por Carlos Martins (Para a Cortina Verde).
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