«Atualidade Sporting» por Ricardo Andorinho





Não escrevo quase nada sobre o Sporting. Limito-me a viver, a sentir e a resolver a difícil tarefa de observar comportamentos que nada têm a ver com desporto.

"Caímos (no Sporting demasiado, embora seja fenómeno transversal) na construção de um modelo anti-Desporto com base nas consequências de jogos de futebol — arbitragens, opinião pública, programas sobre arbitragens e clubite — liderados por uma indústria — imprensa desportiva e «Prime time» dos canais televisivos portugueses."

"Isto é terrível, porque deveríamos estar a construir um modelo que preparasse a base e o controlo de variáveis que nos levassem a ser mais competitivos desportivamente. Por outras palavras, centrar esforços naquilo que depende de nós e naquilo que trabalhamos em função de resultados desportivos. Às vezes tenho mesmo a sensação, que não se treina para marcar golos, analisando só o futebol de 11… Às vezes parece que se treina para não sofrer ou para tentar não sei o quê."

"90 minutos é demasiado tempo para se especular com resultados desportivos ou para se ensaiar, treinar e preparar resultados de empates ou de 1–0. Fui ver o Real Madrid-Sporting e só a mudança de atitude competitiva explica o resultado final. Quisemos colocar o 0–1 num saco, guardá-lo e trazê-lo para Lisboa, sem continuarmos a ser competitivos dentro de campo e tentar marcar mais golos. Pelo contrário (mais uma expulsão JJ quando todos somos poucos), pensámos: «o que fizemos até aqui chega». Nunca ou quase nunca chega… E se pensarmos assim e se quisermos preparar as equipas do Sporting sob esta premissa, não estaremos a construir equipas competitivas."

"Qualquer pessoa com a minha experiência «vê» que as alterações de comportamento competitivo dentro do jogo têm resultados negativos em 98% dos casos. A minha frustração como sportinguista não teve a ver com o resultado final desse jogo, mas sim com a alteração de comportamento da equipa. Acredito que todos os atletas hoje, se lhe perguntarmos se fisicamente não aguentariam o ritmo dos 70 primeiros minutos de jogo, nos responderiam que sim."

"Infelizmente escrevo para falar do que importa aos portugueses (futebol) e não sobre o que me importa a mim (a nossa política desportiva portuguesa para todas as modalidades)."

Histórias de Balneário — falta de cultura desportiva


Algumas decisões de gestão condicionam muito diretamente o rendimento de equipas desportivas.


"Tenho muito orgulho na construção de uma equipa de andebol, na qual tive a honra e o prazer de jogar durante 10 anos. Todos os que andámos nesta vida, sabemos o quão difícil é melhorar um pormenor, a eficácia individual ou a táctica da equipa. Certo dia, o dirigente com maior responsabilidade na equipa de andebol do Sporting, entrega uma folha de salários a todos os atletas, colocando uma bomba relógio no seio da equipa, que explodiu em menos de 30 segundos. Comprovei, mais uma vez e de forma radical que muitos dos decisores não entendem o que é uma equipa desportiva e quais as condições que necessita para se desenvolver de forma competitiva"

"Há muitas dinâmicas, sub-grupos e sub-culturas numa equipa, realidades para as quais os dirigentes devem, no mínimo, estar preparados e conscientes. Uma equipa de especialistas (jogadores de futebol) pode fazer coisas incríveis em conjunto, mas também pode bloquear qualquer sistema humano, dado o conhecimento específico da realidade, a sua influência e a forma como se relaciona com todos os outros intervenientes. Pensar como um ex-dirigente e atual comentador do futebol do Sporting, que sem me conhecer muito bem, teve a lata de me dizer na cara que os jogadores de futebol eram uns mercenários, atesta bem da visão de alguns «responsáveis» desportivos para administrar esta atividade."

"O jogador é «o palhaço» de um circo chamado futebol. Se não centramos o futebol nos palhaços e entendermos que no eco-sistema, não só são eles os mais importantes como são eles os responsáveis pela construção de todas as outras estruturas de suporte à atividade, então estas pessoas não estão a fazer nada pelo clube, pois não entendem a atividade que se propõem ou propuseram gerir."

"Quando joguei no Portland San Antonio, num dia mau, jogávamos em casa, o nosso presidente no final do jogo entrou no balneário, “demasiado stressado” e sem conseguir controlar a sua ira. Colocou-se em primeiro lugar e não contou com a ira dos 15 atletas que foi encontrar, igualmente frustrados com o resultado final do jogo. Temi o pior porque atletas com 115 kg de músculo a enfrentarem fisicamente o presidente, o resultado não poderia ser bom. E garanto-vos que esteve por pouco. Este presidente, viu que a qualquer momento lhe poderia correr mal e começou a amenizar a conversa. No desporto, tudo é possível, se houver contexto e respeito pela equipa. Havendo comportamentos extremistas que a equipa não consegue justificar, o caos fica instalado e dificilmente estes comportamentos são apagados daquilo que é a cultura do grupo, o individualismo de cada um, e também o (fundamental) contrato psicológico que cada um mantém com a equipa. Os membros da equipa, quando situações extremas acontecem, passam imediatamente para modo individual. O meu contrato desportivo, a minha situação na equipa e minha relação com este, aquele e o outro, deixando e relegando a equipa para segundo/terceiro planos. A propósito desta situação, convém ainda dizer que só os atletas são criticados, porque só os atletas são filmados a competir e só eles é que têm o trabalho publicado, comentado, escrutinado e neste campo cozinham-se todos os tipos de argumentos para responsabilizar 1, 2 ou 7. Quando há decisores que magicamente identificam facilmente os problemas da equipa, dão outra indicação à equipa: «É que haverá sempre uma solução para um problema.» Da minha experiência também vos digo que não acredito em nenhuma destas soluções pouco estruturadas naquilo que foram as minhas palavras anteriores: A proteção da equipa e das suas variáveis desportivas. Hoje é assim, amanhã vai ser um mar de rosas, depois da gravidade das coisas que se continuam a passar. Outra das realidades em que os dirigentes falham demasiado é no entendimento do ciclo desportivo."

"Desportivamente não há assim tantas formas de fazer magia a não ser trabalhar competências físicas, técnicas e táticas. A magia deverá ser ganhar e é para isso que devemos estar preparados."

Nego-me a acreditar que o futebol português se gere só por factores extra-desportivos, única realidade a que hoje em dia tenho acesso!

"A actualidade da equipa de futebol do Sporting é complexa, e os dirigentes deveriam proteger a equipa em vez de a exporem. É muito difícil concentrar os atletas para a competição, quando qualquer informação a que estes têm acesso publicamente está a colocá-los individual e coletivamente no banco dos réus. Quem falha é o atleta, não o treinador, nem o presidente. Quem dá a cara perante o público e os adeptos são os atletas, não são os presidentes nem os treinadores."

"Os atletas não são máquinas e são influenciáveis. São os atletas que psicologicamente têm de recuperar de um erro para depois fazerem uma coisa positiva. Estão sempre a ser julgados. O dinheiro que ganham é apenas uma constante (de mercado) nesta análise. Deveríamos influenciá-los positivamente para haver uma boa cultura de grupo e em consequência de competição."

"É fácil ouvir dizer que temos de ganhar. É mais complicado perceber o como, ou confiar nas pessoas certas para o podermos fazer. Tenho dúvidas que estejamos a fazer um bom trabalho nesta matéria."

"Força Sporting!"

Por Ricardo Andorinho
https://medium.com/@MBUintelligence/atualidade-sporting




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Sobre Carlos Martins

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