A herança de Roni na hora do regresso a Lisboa como CR7



Cristiano Ronaldo volta amanhã a Alvalade, para um jogo da Champions.


O DN foi revisitar os lugares e falar com as pessoas que ajudaram a transformar um miúdo tímido e franzino no melhor jogador do mundo em 2008, 2013 e 2014

Roni, como o tratavam os colegas, chegou a Lisboa com 11 anos. Corria o ano de 1997 e o Sporting ainda não tinha a Academia. O centro de estágio da formação era no antigo Estádio José Alvalade, e foi lá que Roni ficou a viver, num dos quartos debaixo das bancadas. Foi aí que a aventura lisboeta-leonina começou. E foi a inauguração do atual estádio a catapultá-lo para o estrelato, num jogo com o Manchester United em 2003. Hoje regressa a Lisboa, e amanhã a Alvalade, agora já como CR7, o melhor jogador do mundo.

Em Lisboa, a herança de Cristiano Ronaldo é enorme. Há sempre alguém que se recorda dele... no clube, na pensão Dom José, na escola de Telheiras ou nos restaurantes Tóbis e O Magriço, onde ia comer. Há espaços que já não existem mas que teimam em não desaparecer da memória, como o campo pelado de Alvalade onde deu os primeiros toques de leão ao peito, o primeiro quarto onde dormiu ou ainda o salão de jogos, perto da mítica porta 10A do antigo estádio, onde muitas vezes gastava a mesada de 30 euros...

Mas comecemos pela pensão. Ronaldo saiu de um quarto (que dividiu com Fábio Ferreira) no estádio para um outro (que partilhou com Miguel Paixão) na residencial Dom José, localizada em pleno centro de Lisboa, na Avenida Duque de Loulé, e que se encontra à venda, a menos de 200 metros do local onde hoje tem um apartamento de luxo.

Na pensão são poucas as referências à passagem de CR7. E apesar de nunca terem pensado sequer "em explorar" o facto de CR7 ter sido "a figura mais ilustre que passou por ali", o dono e gerente, José Pereira, lamenta não ter registos fotográficos da época. Só lhe restam as memórias. "Uma vez ... do que eles se foram lembrar... tirar os atacadores dos sapatos e atá-los um a um. Fizeram um fio e colocaram no fim uns balões de água, para depois lançá-los desde a varanda e acertar na cabeça de quem passava. Agora parece divertido, mas, na altura, dava chatice porque as pessoas vinham queixar-se [risos]", contou, recordando que os jardins do Parque Eduardo VII eram facilmente transformados em campos de futebol para o grupo da Dom José.

Desde essa altura, o quarto 34 já levou umas "pinceladas de tinta", mas a mobília resiste e "a cabeceira da cama é a mesma". O pequeno quarto, com televisão, espelho, lavatório e bidé, que dividiu com o amigo Paixão, que hoje trabalha no Museu CR7, pode ser de qualquer um por 25/30 euros por noite.

Salão de jogos já não existe

A mãe mandava a Ronaldo 30 euros por mês, que ele gastava a jogar Puzzle Bubble ou a fazer corridas num simulador de carros num salão de jogos. "Detestava perder. Quando estávamos para ir embora e ele estava a perder, metia a mão no bolso, tirava uma moeda e dizia "é a última". Era se ele ganhasse! Se não...", contou Miguel Paixão, na apresentação das novas chuteiras de CR7, inspiradas no início da carreira.

Na verdade, Ronaldo foi proibido de entrar no salão de jogos porque não tinha idade para lá entrar, mas deixavam-no entrar na mesma. O salão de jogos já não existe. Foi demolido para dar lugar ao centro de camionagem, entre o estádio e o metro do Campo Grande. Mas houve tempos em que era como uma segunda casa para ele e os amigos. "E até nisso ele era um craque! Até eu quando podia ia jogar matrecos porque ele jogava bem e eu gostava de jogar com ele", confessou Leonel Pontes, o encarregado de educação de Ronaldo, na altura, que deu depois seguimento à tradição: "Quando nos encontramos na Madeira vamos jogar no café perto da casa dele."

A escola em Telheiras

Um dia pediram a Leonel Pontes, um dos responsáveis do centro de estágio leonino, para ir à Madeira "observar um miúdo com muito talento que jogava no Nacional". E foi o que fez, ou tentou... depois de um jogo olhou para a bancada e viu "um miúdo franzino, tímido e olho vivo" ao lado do padrinho e de Marques Freitas, o presidente do Núcleo dos leões da Madeira (ver entrevista), que tinha falado dele a Aurélio Pereira, então chefe dos olheiros do clube. "Perguntei porque estava na bancada e ele respondeu que já não tinha idade para jogar o torneio... e eu pensei "então, mas eu vim ver-te jogar". Chamei o Fábio Paim e pedi para a equipa trocar umas bolas com o Ronaldo, e bastou para ver a forma como tratava a bola. Reuni a informação que consegui e disse ao Aurélio "temos de tratar de o levar para Lisboa o mais depressa possível. Não o vi jogar, só o vi brincar com a bola, mas revela um talento extraordinário"." E assim foi. Em agosto de 1997 já treinava em Alvalade.

O madeirense Leonel Pontes ficou então como encarregado de educação de Ronaldo, dos 12 aos 15 anos. "Foi preciso estar muito em cima, acompanhar, ser vigilante, mas a integração foi fácil . Falávamos bastante sobre a nossa terra, a mãe dele estava sempre em contacto comigo, o que fazia que eu acabasse por ser uma referência na vida dele", admitiu, antes de recordar que aos fins de semana levava-o a almoçar ou a dar um passeio...

O primeiro dia de aulas em Lisboa foi um pesadelo. Conta-se nos corredores da Escola Básica de Telheiras que chegou atrasado e a professora pediu para ele se apresentar à turma do 6.º ano. Mas quando disse "Olá, sou o Cristiano Ronaldo e venho da Madeira", com pronúncia característica e muito cerrada, os colegas riram-se e gozaram. E, dizem, até a professora soltou uma gargalhada. Ronaldo não reagiu bem e terá sido alvo de um processo disciplinar logo no primeiro dia. O encarregado de educação não se recorda disso, mas lembra-se de que lhe deu alguns raspanetes fora e dentro de campo. Alguns sem culpa: "Ele reagia e por vezes baixava a cabeça... normal."

Certa vez ficou de castigo. Talvez o pior que lhe aplicaram. Ficar um jogo sem jogar. Tudo normal, não fosse o jogo um Marítimo-Sporting, no Funchal: "Fartou-se de chorar, por não ir à Madeira ver a família."

Na escola, "embora não fosse um aluno brilhante, Ronaldo não era mau aluno e quando se aplicava era bem-sucedido". O problema é que "à medida que foi crescendo o futebol ganhou cada vez mais importância e a escola foi ficando em segundo plano". O primeiro ano passou, o segundo chumbou... Em Educação Física era sempre o melhor e não gostava nada de Inglês.

Na opinião do atual treinador dos húngaros do Debrecen, Semedo teve uma "importância brutal" na carreira de CR7. O central saiu do Sporting e depois voltou aos 14, com vontade de levar o futebol a sério, mais robusto e interessado. "Começou a treinar sozinho, com a cultura do treino físico, os abdominais, as flexões. Criou um nível de influência muito grande no Ronaldo, que passou a trabalhar o corpo, muitas vezes competiam entre eles. Foi o Semedo que lhe passou essa exigência do trabalho", conta Leonel Pontes, revelando que mais tarde, quando alguém quis dispensar Semedo, "Ronaldo pediu ao Sporting para ele ficar, e eles aceitaram".

Era tão obcecado pelo treino físico, que uma vez foi apanhado no ginásio às duas da manhã e ficou de castigo, mais uma vez. Desde então, CR7 ganhou dez quilos de massa muscular.

O Magriço e o Tobis

Hugo Pina é um ano mais velho do que Ronaldo. Conheceram-se nos juvenis e houve logo empatia. "No futebol não há idades, e quando alguém diz que é isto e aquilo, a resposta é sempre a mesma: "Mostra em campo." E ele mostrava, por isso ganhou logo o nosso respeito", contou ao DN o atual jogador do Sintrense, feliz pelo sucesso do amigo: "Acima de tudo ele queria ser o melhor, e em tudo. Lembro-me de ele ver o Thierry Henry a correr e dizer que ia ser mais rápido do que ele. Depois um dia viu as pernas do André Cruz, que eram uns troncos, e disse que as dele iam ser assim..."

Desses tempos recorda ainda que ele andava sempre "picado" com Edgar Marcelino e Ricardo Quaresma. Se um fazia uma finta, ele tinha de fazer melhor. Só não conseguiu fazer a trivela como o Quaresma. Ainda hoje se diverte a tentar nos treinos da seleção nacional.

A vida dele foi sempre isto: competição e motivação. Um dia convidou o amigo Hugo Pina para ir de férias ao Funchal e Hugo percebeu que de férias os dias de Ronaldo tinham pouco: "Divertia-se a subir as encostas com pesos nos tornozelos." E não era preciso ser um desafio extraordinário para o motivar. Na Alameda das Linhas de Torres desafiava a velocidade dos carros. Apostava que conseguia ser mais rápido do que um carro a arrancar do semáforo até a um determinado ponto. Mal sabiam eles que, em 2008, CR7 iria mesmo desafiar o carro mais rápido do mundo, o Bugatti Veyron, e ganhar!"

Na altura os miúdos da formação iam comer aos restaurantes Tobis e Magriço, ambos no Lumiar. Ainda hoje existem. Na entrada lateral do Magriço, a metros do novo estádio, um busto de Francisco Stromp, o fundador do clube, avisa que lá dentro é reduto de leões. Depois de entrar só resta um cartaz a avisar os clientes de que outrora aquele foi o restaurante que deu de comer a Cristiano Ronaldo.

António Gonçalves, o dono do Magriço, não se recorda de nenhum petisco preferido, mas Hugo Pina, que apesar de não viver no centro de formação também se intrometia no grupo do lanche, recorda duas iguarias com toque familiar, e que eram feitas em casa, que deixavam o capitão satisfeito: "As papas de milho da mãe e a omeleta de cebola e salsa que o pai fazia para nós."

Aurélio Pereira deu a cara por ele

Nascido no Funchal a 5 de fevereiro de 1985, Ronaldo chegou a Lisboa antes de fazer 12 anos, a troco do perdão de uma dívida de cerca de cinco mil contos (25 mil euros) do Nacional. "Chegou apenas com talento na bagagem, que o Sporting ajudou a florescer", segundo Aurélio Pereira, o homem que deu a cara por ele junto do relutante vice-presidente Simões de Almeida.

"Percebemos logo que havia ali um talento fora do vulgar e segui os ensinamentos do padre Alberto (antigo diretor espiritual dos leões), que um dia me disse: "Quando tiveres dúvidas pensa e pergunta a ti próprio o que é melhor para o Sporting." E foi o que fiz no caso do Cristiano", resumiu ao DN, explicando que "o melhor olheiro é como São Tomé", precisa de ver para crer: "E eu tive a sensatez de pedir para vir prestar provas."

O dia-a-dia dele era ir escola e treinar, às vezes no campo do Sporting da Torre ou num das Águias da Musgueira. Os jogos eram em Óbidos ou em Sarilhos, a terra de Manuel Fernandes, a grande referência do clube na altura. Depois à noite é que era mais complicado. "Foi difícil. Nesses primeiros tempos, quando ainda não havia jogos ou escola, os miúdos sentiam mais a falta dos amigos e da família. Tínhamos de estar ali para eles. E estivemos sempre, nos bons e nos maus momentos", recorda o senhor Aurélio, como ainda o trata hoje CR7.

Ele trata-o por "miúdo rebelde que sempre acatou os conselhos", que começou por receber dez contos (50 euros), como apanha-bolas, e passou para os 2000 quando assinou contrato profissional. Muito longe dos milhões de euros que hoje recebe do Real Madrid e das marcas pelas quais dá a cara.

@Diario de Noticias
Por Isaura Almeida
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