«Sou capaz de ter um poster de William no meu quarto» - Por Luis Moura.



"Sou uma espécie de bicho-de-mato...Não tenho ídolos, quase desde que me lembro. Nem sequer na música ou no cinema, mesmo que possa apreciar muito este, aquele ou aquela."


"O último poster que tive na parede foi de uma miúda descascada recebido como prenda de anos. Os meus amigos devem ter pensado que eu viria a ser mecânico ou motorista de longo curso. É verdade que na altura em que eu tinha idade e feitio para ter ídolos não era fácil encontrar posters do Damas, do Yazalde, do Jordão ou do Manuel Fernandes. Descascados ou por descascar, não interessa.

Depois surgiu Futre…e a primeira grande desilusão.

Ainda não tinha maldade no corpo quando Alhinho chegou ao porto, depois de 3 épocas no Sporting. O dinheiro começou então a substituir o amor à camisola, e a indiferença começou a substituir a idolatria.
Com Futre desejei, pela primeira vez, que alguém partisse duas ou três pernas no jogo seguinte.

É verdade que também já tinha noção do bem e do mal quando Eurico trocou o Sporting (vindo do benfica) pelo porto, e já tive vontade de o mandar para o *Alhinho…mas Futre era um menino da casa e abriu uma espécie de portal (como nos filmes de ficção científica) e passou a ser normal ver jogadores aparecerem, como por magia, em qualquer lado.

Fernando Mendes, Inácio, Montinho, Simão, Quaresma ou Peixe foram apenas alguns dos que, por um ou outro motivo, passaram a usar um emblema que eu nunca colocaria ao peito.
Também Figo trocou-nos por pesetas, depois de lhe terem recusado algumas liras, mas isso são contas de outro rosário.

A questão é que quase deixei de valorizar quem está dentro da nossa camisola, pois passados 15 minutos pode estar dentro de outra. Pouco me interessa se é Liedson, Jardel, Slimani ou…Bojinov quem marca, desde que a bola entre na baliza e o Sporting vença. A camisola listada, a Stromp e o leão rampante são os que verdadeiramente idolatro.

Ainda assim, há um ou outro jogador que ainda teima em querer fazer ressuscitar aquela inocência de menino. Não falo obviamente de Adrien pois, apesar da sua qualidade e entrega, já esteve por duas (ou três?) vezes com a mochila às costas para deixar o clube. 

Podia falar de Patrício, que pelo andar da carruagem poderá entrar na história do clube pela sua longevidade, mesmo que infelizmente possa não vir a ostentar um palmarés digno de realce, fruto dos anos de trevas que ensombraram o clube.

Quem continua efetivamente a encher-me as medidas é, de facto, William Carvalho.
Acredito que um dia poderá vir a sair do Sporting, como saiu Damas. Como saiu Yazalde.
Como tiveram de sair Jordão e Manuel Fernandes.

Logo à partida, reconforta-me o espírito saber que quis vir para o Sporting, há mais de uma década, apesar do Benfica lhe ter batido primeiro à porta. Contudo, o sportinguismo é apenas mais um predicado, pois a qualidade que acrescenta à equipa é quase sempre fundamental...E muitas vezes invisível.

Ontem, no mau jogo da Taça de Portugal, foi ele quem juntou um pouco os cacos espalhados pelo campo. Houve um jogo A.C. (antes de Carvalho) e D.C. (depois de Carvalho), mesmo que ele não tenha conseguido resolver o problema Jefferson, o problema da incapacidade dos centrais em armar jogo, o problema dos ritmos que o ausente Adrien impõe, etc.

A lesão de Petrovic roubou-lhe 45 minutos de descanso, e arriscou um qualquer problema em vésperas de importante jogo da Champions, mas voltou a constatar-se que não existe alternativa no plantel. Tem dias bons e menos bons, como os têm Messi, Ronaldo ou Pogba, e é quase sempre ignorado pela tendenciosa imprensa portuguesa.

Sofre há mais tempo que Gelson, a injustiça de ser preterido nas capas dos jornais por um qualquer André Horta ou Guedes, e sofreu durante muito mais tempo as castradoras escolhas de Fernando Santos.
Mesmo que continue a fazer passes de trivela de 50 metros, como o que ontem isolou Markovic, continuará a ser associado a jogo lateralizado e com pouca fluidez.

Até há adeptos sportinguistas que interiorizaram esta mentira repetida tantas vezes que se tornou verdade para alguns. Por tudo isto, talvez um dia fosse capaz de vir a colar um poster de William Carvalho no meu quarto, até ao dia em que passasse a vestir outra camisola.

Nessa altura, o mais certo seria procurar o poster da miúda descascada, já meio comido pela traça e com vincos de várias dobragens."

Por Luís Moura.
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